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domingo, 5 de dezembro de 2010

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O Último Fenício VII


VII

   Um mosquete, uma mula e uma garrafa de aguardente foram as únicas coisas que conseguiram angariar com os parcos recursos que tinham. Retornaram ao cubículo do Morro do Castelo para planejar toda a ação. Maurice e Christian esperavam encontrar ouro suficiente para comprar toda a Armada de Filipe II. O inglês desenrolou um antigo mapa que mostrava o caminho da Pedra do Imperador, mas estava aborrecido por não poder montar uma grande expedição.
-E para quê? – Perguntava Maurice – Falas como se a intenção fosse desbastar as selvas do Congo. Mal passaremos uma noite lá.
-Isto se nada encontrarmos... Pensaste na possibilidade de todo aquele tesouro? Como faríamos para descê-lo de lá? Para isso precisaríamos de um contingente suficiente de braços para carregar os baús e...
-Não, isso não! Assim que puserem o olho em todo aquele ouro, roubarão para si. Christian, não nos pode faltar sequer uma moeda, entendeste?
-E como pretendes sair de lá? Voando?
-Deixemos para nos preocupar com isso depois. Conte-nos tudo o que sabe sobre a tal montanha!
-Bem, uma pequena expedição subiu lá em 1839, mas nada constatou que confirmasse a presença efetiva de fenícios. A desconfiança surgiu a partir de um painel gravado com sulcos estranhos que bem podem ser a língua dos antigos habitantes de Cartago.
-E como obteve o mapa e o desenho? – Inquiriu Nikola, interrompendo o silêncio que mantinha desde o retorno.
-Eu sei que não é nada nobre o que fiz, mas... Eu os roubei de um amigo meu em Londres. O pai dele esteve no Brasil, quando ainda era jovem, por volta de 1815 e parece que essa lenda já corria... Ele subiu lá, fez o mapa e o desenho da Pedra... Porém, nada, nada de tesouro.
-Ah, a perspectiva de lucrar fácil foi mais forte do que tua amizade, não? – Ironizou Maurice.
-Ora, cala-te, miserável! Não podes apontar-me o dedo... O que dizer da tua atuação com esse daí na Europa, hein?  
-Chega! – Nikola falou em tom contundente – então fica decidido que partiremos amanhã?
-O quanto antes, meu caro mestre! Não quero deixar um dia a mais aquele tesouro a mercê de qualquer outro aventureiro! – Respondeu Maurice.
-Então deves me magnetizar para que eu, em desdobramento, possa localizar a passagem, se é que existe alguma!
   Nikola recostou na cama de lençóis ensebados do cortiço e logo Maurice aplicou-lhe passes magnéticos. O judeu experimentou, gradualmente, uma sensação de leveza incomum: braços e pernas assemelhavam-se a plumas, passando a levitar – percebeu que estava fora do corpo. Inopinadamente, atravessou o teto com facilidade e, uma vez no alto do prédio, desintegrou-se, tomando novamente sua forma espectral acima daquele gigante bloco coberto de vegetação.
-Posso ver com meus olhos etéreos – dizia mecanicamente a boca carnal que ficara no quarto – e... Existe... Existe uma passagem no cume... Um portal... Eu vejo...
-Vá até lá, tente entrar! – Ordenou o francês.
-Não... Não posso!
-Tente!
-Não, não posso... Não posso chegar lá... Uma... Uma força me impede... Não deixa...
-Ora, é claro que deixa! Tens poder suficiente para isso! Ande, veja se lá há algum tesouro!
-Não deixa... Não deixa... – Nikola começou a se debater e a transpirar – preciso voltar, preciso voltar! – Não disse mais nada, apagou completamente.
   Maurice tentou reanimá-lo, ainda despejando o conteúdo de um jarro no rosto de Nikola. Malogrados os meios de acordá-lo, Maurice verificou os batimentos de seu coração – quase não se ouviam. 
-Meu Deus! - O francês colocou as mãos nas têmporas - Nikola está morrendo!

Continua...

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