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sábado, 9 de abril de 2011

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O Último Fenício IX

Peço desculpas a todos que acessam esta página e que  acompanham os contos aqui publicados, mas alguns imprevistos me impediram de continuar a escrever. A conclusão da história será publicada nos próximos dias. Espero que gostem!
***


Capítulo IX
   Nikola foi preso e toda a opinião pública voltou-se contra ele. O oficial austríaco invocou os direitos de um nobre traído e fez valer a sentença de culpa e a condenação de morte. Dizia a todos que amava a jovem dama e que ela fora coagida a cumprir tudo o que desejava o judeu; que ele a matara, malgrado todos os apelos e toda a defesa que o oficial fizera de sua amada. E mesmo que Nikola negasse as acusações, o peso da palavra de um membro da corte foi maior.
   -Pegaram-me, Maurice! Não há defesa; há apenas acusações! Eu a amava tanto, e agora sou seu assassino. Quem diria que eu poderia matar meu objeto de adoração? Sinto que sua alma revolve-se no paraíso por me ver posto a ferros e execrado com a culpa de tê-la matado. Não te preocupes, minha querida, logo estarei junto de ti! Confio em Deus; Ele fará um julgamento justo. Quem sou eu aqui? Sou mais um judeu sem origens, odiado por este simples fato. Todavia, no céu serei um filho dileto e viverei a eternidade com minha Amália. Lá não há raças, não há origens e distinções nobiliárquicas. Há o amor, somente, e este é o verdadeiro Paraíso!
   -Não digas bobagens! Não irás morrer! Confies em mim: tenho o ardil certo para salvar-te além, é claro, de um bom advogado! – Dizendo isso, Maurice piscou o olho direito – aí poderemos continuar as apresentações em outros lugares, bem longe de Viena!
   -Não, não farei mais apresentações! Não vês que isso é o motivo de minha desgraça? Deveria ter escutado as admoestações de meu avô e jamais ter me envolvido com isso! Eu me afastei de minha crença e do lar para ganhar dinheiro com frivolidades. Eis minha punição.
   -Viverás ainda muito para pensar e mudar de idéia! Bem, devo me retirar. Agora tornas a ver-me somente fora da cadeia!  - Dias após este breve diálogo, Nikola foi solto. O oficial, incitado por seu pai, assumira a culpa e inocentara o rapaz. E foi assim que Nikola voltou para Belgrado; sabendo da morte do avô, resgatou sua herança e passou a viver uma vida reclusa. Três anos depois, encontrava-se ele descendo o morro do Castelo, junto de Maurice e Christian, lembrando do ocorrido que no passado tivera lugar, motivado pelas sensações da noite anterior.   
   -Maurice, ainda hoje não sei como é que conseguiste convencer o conde, pai daquele oficial, a obrigar o filho a retirar a acusação. Como me salvaste? – Inquiriu Nikola que puxava a mula.
   -Nunca tive a oportunidade de dizer-te, pois não quisera mais falar no assunto quando tudo aconteceu. Não o vi mais nos últimos anos. Mostrei ao conde uma carta, uma carta da esposa dele, morta, que continha ricos detalhes; detalhes tais que eu não poderia saber. Foi o suficiente para ele acreditar em mim e aceitar o meu pedido de intercessão. O conde era um velhote impressionável e adorava assuntos sobre misticismo. Fora ele quem conseguira que nos apresentássemos em Schoenbrunn, lembras-te? Pois bem, recebera-me muito bem em sua propriedade, não obstante estar abalado com a situação. Disse-lhe que possuía algo do interesse e mostrei-lhe a mensagem que tu, meu caro Nikola, em uma de tuas inúmeras manifestações, escrevera sob influência da condessa.
   -E por que nunca falara nisto? Por que só agora me contas?
   -Não percebes que ele viu a tamanha importância da carta e guardou-a para valer-se de suas vantagens no momento propício? Foi o que ele fez! Por sorte, a má índole deste homem foi capaz de salvá-lo! – Intrometeu-se Christian.
   -Cale esta tua boca, ordinário, ou meto-lhe uma bala deste mosquete em uma das têmporas!
   -Ele tem razão, Maurice! – Obtemperou Nikola – Guardaste esta carta para obter algum ganho futuro!
   -E obtive! Eu salvei a tua vida!
   -Salvaste na esperança de Nikola voltar a dar-te os lucros que dava antes! – Disse o inglês.
   -Isto não vem ao caso! Ora, é tudo passado. Tu, Nikola, deverias esquecer isso de uma vez! Pensemos no tesouro e em todo o bem que ele fará! – Maurice encerrou o assunto apressando mais o passo, mantendo-se adiante dos outros como se estivesse muito ofendido.
   -É uma raposa velha! – Sussurrou Christian para si, pensando que Nikola não o ouvia.
   O dia transcorreu e o grupo atravessou a cidade na direção da Pedra. Não chegaram lá sem certa dificuldade: muito caminharam por trilhas de terra, desbastando o mato que encontrassem; passaram por vilas, casebres e até um quilombo. A mula empacou e Christian, que a essas alturas lhe ia em cima, esvaziara toda a garrafa de aguardente. A expedição, se é que assim se pode chamá-la, fora muito mal organizada – faltava-lhes tudo e decerto não suportariam uma noite sequer ao relento. E quando paravam para um descanso, Maurice insistia em continuar, pois queria colocar logo as mãos no tesouro. O animal tivera que ficar para trás; Christian cambaleava cantarolando canções inglesas e galgava os barrancos com o auxílio de Nikola.
   -Andem depressa! Traga este bêbado, Nikola! Não podemos perder mais tempo! – Berrava Maurice de um plano mais alto da subida; e, de si para si dizia: - vendi o que tinha e empreguei os poucos recursos que possuía para chegar até aqui. Mas volto rico para a Europa! Rico!
   Uma vez no alto da Pedra, no imenso platô, de onde se divisava a paisagem magnífica da cidade, suas montanhas, baía e mar; naquele dia de sol, que mais impressionava quem ali estivesse, por fazer sentir-se dentro de uma tela viva de cores e exuberância que nunca antes um pintor da Renascença concebera; misto de verde, azul, dourado, branco e terra, muita terra que tingia roupas e calçados dos desbravadores; Maurice ergueu-se perante ao quadro e, pondo-se no beiral de um dos abismos, convocou o inglês:
   -Christian! Christian! Venha, corra! Achei o tesouro! – Em sua passada trôpega, embaciado pela ambição, quase sóbrio pelo espanto, acorreu ao chamado e lá chegando, debruçou-se para ver: -mas, Maurice – dizia com a língua enrolada – eu nada vejo daqui, somente arbustos e pedras.
   -É que as tuas vistas foram turvadas pela bebida. Agacha-te mais e aproxima os olhos – pondo-se atrás de Christian e, aproveitando-se de seu esforço para ver o tal tesouro, empurrou-lhe com o pé direito e o corpo do inglês precipitou-se no ar. Um breve grito e um baque seco aturdiram Nikola que mal podia acreditar no que acabara de fazer o francês.
   -Mataste, Maurice, mataste Christian! Por quê? Por que o empurraste?
   -Meu caro Nikola, andaste bebendo também? Christian caiu! Ele estava bêbado! Decerto se desequilibrou!
   -Não, eu vi, eu vi! Eu vi quando empurraste o Christian! E agora, vais me matar também? Vais me jogar lá embaixo para ficares com todo o tesouro?
   -Não – respondeu Maurice com um sorriso sardônico – não vou matá-lo agora – apontou o mosquete para Nikola – Christian era um magarefe miserável; creia-me: fiz um favor para sua existência o livrando da terrível carga da inutilidade de uma vida de embriaguez e pequenos golpes. Serviu-me para trazer-me aqui, porquanto tivesse o mapa em mãos, fosse guia e intérprete! Mas sua função havia sido cumprida e eu não poderia dividir meu tesouro com quem o dissipasse de forma vil. Quero-o inteiro para mim! Tu, Nikola, mais uma vez far-me-á lucrar. Use teus poderes e descubra a passagem para o lugar onde está o meu tesouro!
   -Eu sabia que nada valias! Fui ingênuo em acreditar que te emendarias; que a nossa amizade fosse maior – e dolorosamente continuou: - mata-me, Maurice, pois não vou ajudá-lo em teu intento. Não servirei de instrumento e meio para que te engrandeças novamente! – Dito isto, uma nuvem inesperada naquela tarde límpida, cobriu o cume da Pedra e tapou a visão de ambos, de maneira que um não mais pôde ver o outro.
   -Maldito! – Gritava Maurice disparando o mosquete a esmo. Naquele instante, Nikola sentiu faltar-lhe o chão, apagando completamente em seguida.

Continua...

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