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quinta-feira, 30 de setembro de 2010

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O Último Fenício III



Capítulo III

   Horas depois, Nikola despertou em seu camarote de número três, sob a vigília de seu amigo Maurice que velara todo o tempo por si.
- Mestre, fiquei preocupado contigo. Estás bem?
- Sim, pareço ter mergulhado em águas profundas da consciência, mas não tão escuras que não pudesse ver o que se passava... E a esposa do reverendo Johnson?
- Ela está bem, mas como...
- Eu vi tudo, Maurice, enquanto estive no quarto deles e agora ao dormir.
- Ah, Mestre, não deixaste de ser aquele médium de primeira categoria que conheci!
- O reverendo não estava de todo errado: a mulher dele está sofrendo o assédio de uma alma errante, a quem pessoas como o reverendo chamam demônio!
- Uma alma? E de quem é esta alma?
- A esposa do reverendo é bem mais jovem que ele e caiu em desgraça ao engravidar de um rapaz. Seu marido nunca soube que a mulher lhe traía, muito menos que tirou o filho que esperava por medo; é a alma dele que a perturba!
- Isto é fantástico, Nikola! Não perdeste as tuas faculdades! Eu sabia que eras a pessoa certa para... Bem, é...
- Certa para o quê?
- Ah, eu sabia que não era uma simples mágica, o que fizeste durante aqueles anos freqüentando os salões da aristocracia européia...
- Não estou entendendo... Estás escondendo alguma coisa de mim, Maurice?
- Não, não... – respondeu meio nervoso – creio que seja melhor levantares porque não tarda muito para servirem o jantar – desconversou.
- Maurice, por que o teu súbito interesse em fenícios? Eu vi que, além da vida de Aníbal, tens outro livro falando sobre a história daquela civilização e mais o desenho estranho de uma montanha de cimo achatado...
- Já te disse que não é nada que não um passatempo de viagem. Sabe? Eu nunca compreendi muito bem como se dava essa tua clarividência; como foste capaz de ver aquilo tudo?
- Quando a mulher tinha convulsões, percebi uma mancha escura pairando sobre ela, passando logo em seguida para o reverendo. E aí, ao tentar apaziguar os ânimos exacerbados de ambos, a mancha desapareceu pela parede onde estava a cômoda, provocando seu movimento brusco. Senti que meu espírito abandonava o corpo e conduzia-me ao passado, pude ver tudo o que te narrei aqui. Por isso desmaiei e permaneci desacordado...
- Isto é fabuloso!  - Maurice possuía um brilho diferente nos olhos – bem, está na hora de vestires tua casaca, vamos ao jantar!
   Assim que adentraram o salão, a esposa do reverendo levantou-se de sua mesa e, pondo-se diante dos dois amigos, iniciou mais um ataque dos nervos:
- Foram esses homens! Foram eles! – Gritava para os presentes – Este aqui invoca demônios – apontou para Maurice – foi ele quem colocou o demônio atrás de mim! E este outro, este outro é um assassino! Pensas que não sei que foste tu quem mataste aquela moça? A Europa inteira sabe que tu és um assassino! Assassino! – Maurice e Nikola se olharam consternados e o reverendo veio logo conter a sua esposa, conduzindo-a a muito custo para o quarto. Nikola retirou-se e o capitão veio desculpar-se com Maurice, prometendo que cenas como aquela não se repetiriam em seu navio.  O francês voltou para o camarote e encontrou Nikola chorando:
- Não fiques assim, Mestre! O capitão garantiu-me que o reverendo e sua esposa descerão em Lisboa. Aí poderemos seguir em paz para o Brasil...
- Não entendes? Meu passado me segue aonde for! Também posso sofrer esta humilhação tal como sofri hoje aqui caso reconheçam-me lá! Melhor ficar em Lisboa também e retornar para meu quarto de hotel em Belgrado...
- Mesmo trancado em um quarto de hotel, teu passado não te abandonarás! Não vês que ir para o Brasil é a chance de começar uma nova vida? Lá ninguém te conhece!  Não é a toa que chamam o continente americano de Novo Mundo! Portanto, deixa teu passado no Velho, Mestre!
- Talvez tenhas razão, Maurice, talvez tenhas razão! – Nikola acalmara-se.  
   Maurice Corbeau era francês oriundo de uma família remediada de Besançon. Seu destino quase deu no seminário, mas um tio de posses custeou seus estudos em Paris. O curso de Medicina serviu-lhe como a fuga de um fim medíocre, tal era sua consideração pelo ofício eclesiástico. Sua personalidade irascível, sua crítica mordaz jamais consentiriam que dormisse sequer uma noite debaixo do teto de um seminário. Preferia a liberdade das tavernas, dos debates inflamados, das idéias subversivas – também a bebida e o jogo. Contudo, seu porte esguio, a cabeleira negra, ar impoluto de duque emprestavam-lhe austeridade. Nesses dias de Paris é que soube das manifestações que projetavam objetos e faziam mesas girar. Compareceu em uma dessas reuniões e não mais saiu. Tornou-se, por assim dizer, um estudioso, envolvendo-se com o magnetismo mesmeriano. Passou ele mesmo a conduzir as reuniões e a ‘exportá-las’ para outros cantões da Europa. Foi em Viena que conheceu Nikola e, vendo nele um médium poderoso, fizeram carreira na Áustria, França, Itália, Espanha, Inglaterra e quase atravessaram o Atlântico para se apresentar nos Estados Unidos.  Maurice angariou vultosa soma e, não fossem os acontecimentos nos quais Nikola esteve metido em Viena, teria ganhado muito mais. Uma vez instalado em Marselha, perdeu boa parte em investimentos malogrados no ramo de exportação, caindo em poucos meses no ostracismo. A Medicina mal podia sustê-lo. Se Nikola era sisudo, Maurice era inquieto; naquele ano de 1871, contavam vinte e sete e trinta e quatro anos respectivamente.
- Meu avô nunca aceitou que eu tivesse esses poderes; ele era judeu ortodoxo e condenava-me nas cartas que mandava pelos meus prodígios e o modo como fazia saber a todos! – Iniciou Nikola – em pensar que fui a Viena como caixeiro para cuidar dos negócios de meu avô... Ah, se minha curiosidade não me levasse àquele salão, jamais o teria conhecido... Quem sabe até se jamais houvesse conhecido Helga?
- Hoje serias um caixeiro! Ora, Nikola, não te lamentes! O passado é irrevogável! Se não houvesses entrado naquele salão, não seríamos amigos, hein! Em algumas horas estaremos em Lisboa, depois iremos direto ao Recife e de lá para o Rio de Janeiro! Sabia que o Brasil é um Império? Viste? Trocarás apenas de Imperador, mas não de Regime! Dizem que lá é muito quente... Bem, não importa, tenho vistas na fortuna que faremos!  - Maurice se entusiasmava e Nikola apenas sorriu-lhe.
   Semanas mais tarde, Nikola teve outro pesadelo. Subiu à tolda para tomar os ares da madrugada e deparou-se com a silhueta de estranha montanha ao longe...

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