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domingo, 26 de setembro de 2010

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O Último Fenício I

   A partir de hoje, a página do Projeto Neblina terá uma sessão para todos aqueles que gostam de Literatura Policial, de Realismo Fantástico e Suspense. O conto a seguir é o primeiro capítulo de uma série que será publicada continuamente. Esperamos que apreciem e comentem.

 ***





Capítulo I

   Naquela manhã fria de Belgrado, acordou transpirando; desta vez o pesadelo parecera tão real que o fez sentir faltar o ar, despertando com tamanha violência que, se a cama não fosse larga, certamente, ao se debater, cairia. Suas vistas embaciadas mal percebiam a claridade do dia enquanto os pulmões arfavam, sorvendo oxigênio com avidez; ouviu imediatamente um leve soar na porta e, trêmulo, levantou-se, vestiu o roupão e foi ver quem era: um criado do hotel trazia um telegrama. Suas mãos brancas abriram delicadamente o envelope e ali se lia breve mensagem: “mestre, encontre-me em Marselha em dois dias. Tenho nova proposta. M.’’ - Sabia muito bem de quem era aquela mensagem e podia até imaginar a que proposta se referia. Todavia, os acontecimentos recentes de sua vida o faziam querer fugir de todo e qualquer caso que se tratasse de mistérios. Afinal, despendera tanto tempo na tentativa de solucioná-los, recebendo muita amofinação e nenhum dinheiro. A sua felicidade é que contava com uma herança de família e vivia à farta. Amassou o papel, mantendo-o cerrado na mão esquerda. Recordou assim a terrível imagem que o vinha perseguindo havia várias noites: a escada de três degraus terminando em uma porta que dava para a parede nua. E detrás dela, ouviam-se gritos abafados pela sólida camada de tijolos - teve vontade de chorar. Após soltar o papel em cima da mesa de mogno, mergulhou as mãos na água da tina, lavou o rosto, depois sentou-se na poltrona, acendeu um charuto e pôs-se a meditar durante largos minutos. Por fim, vestiu o paletó e saiu para almoçar. Quando retornou, já estava decidido: “eu vou!”- disse de si para si.
   Deixou o hotel, o Império Austro-Húngaro, sua política e a terra onde nascera e fora perseguido – onde perdera um grande amor. Chegou a Marselha no tempo esperado e, por sorte, soube de habitantes locais onde encontraria seu amigo: foi em uma taverna perto do porto. Lá estava o homem responsável pela sua viagem. Fumava cachimbo, expelindo grossos rolos de fumaça azulada e de cheiro adocicado. Entretido com o jornal, deu pequeno gole no cálice de vinho barato sem reparar na presença do outro.
- Quem o vê fumando este cachimbo e tomando vinho, pensa ter diante de si um fidalgo de modos refinados. Mal sabem que o fumo é ordinário e o vinho, de péssima safra! – disse o que acabara de chegar, interrompendo a leitura daquele homem, fazendo-o erguer os olhos.
- Arre! Este vinho tem gosto de vinagre e o fumo deve estar misturado com esterco! Mas ninguém precisa saber disso – retrucou o homem rindo – dê-me cá um abraço! Pensei que não o veria mais, folgo em sabê-lo vivo e bem!
- Vivo estou... Bem já não diria...
- Ainda aqueles pesadelos?
- Sim, estão cada vez piores e mais freqüentes. Parecem de tal maneira real que custo a conseguir acordar e, quando acordo, sinto pressão nos pulmões e vertigem; meu coração fica aos pulos!
- Percebo que estás abatido...
- Talvez o cansaço da viagem e...
- Não, não é o cansaço. Eu conheço muito bem esses sonhos, sei o quanto agem sobre nosso corpo. Mais: sei como dominam a nossa mente e, no seu caso, sei o porquê de terem tamanha intensidade.
- Imagino o que irá dizer: que devo esquecer Helga! Eu não posso esquecê-la! Não posso!
- Helga está morta. Não podes trazê-la de volta...
- Como não? Nós quase conseguimos, lembras-te? Eu vi, eu vi...
- Viste um espectro, uma mancha, uma névoa! Aquela definitivamente não era Helga!
- Nós podemos tentar repetir a experiência e...
- Não, eu não o chamei a Marselha para isso! Há meses deixei esse tipo de experiência para trás!
- Então por que fizeste-me empreender essa viagem de Belgrado a Marselha? Qual o propósito?
- Bem, há alguns meses, exatamente no período em que deixei os estudos dos fenômenos extraterrenos, encontrei um amigo inglês em Paris e ele me ofereceu sociedade na companhia de seguros que pretende fundar no Brasil.
- No Brasil?
- Sim. Ele sabia de minha situação e de minhas malfadadas incursões no ramo de exportação; perdi muito dinheiro com isso e não posso mais viver do nome que construí aqui na Europa! Os salões aristocráticos não se abrem mais para mim... De sorte que resolvi aceitar... Embarco depois de amanhã...
- E onde entro nisso?
- Irás junto! Trabalharás comigo na companhia!
- Queres que eu vá para o Brasil e trabalhe contigo na companhia de seguros? De modo algum! Ir para o Brasil está fora dos meus planos!
- Pense bem! Será melhor deixares a Europa e todas as recordações amargas que só te fazem mal! Eu soube que estás escondido em um quarto de hotel, que tens algum luxo, mas pouco sais, pouco vives! Estás a cada dia mais adoentado e abatido! Assim acabas por morrer!
- Não posso, já disse! Se eu for, estarei abandonando Helga!
- Helga está morta! – Gritou dando um soco na mesa e, agarrando o outro pela lapela do paletó, prosseguiu: - Helga está morta! Veja, no Brasil poderás esquecê-la, terás a oportunidade de ficar rico, entendeste bem? Rico!
- Eu tenho uma pequena fortuna que me foi deixada de herança, tu bem o sabes! Não preciso de mais!
- E quando acabar, hein? Ademais, agora é tarde para recusares: reservei dois camarotes no próximo vapor!
- Estás louco! Não vou, não vou!
- A França está em guerra com a Prússia, há rumores de um novo levante em Paris; não demora muito e esse conflito se alastra. És tão desprezado naquela tua terra que mesmo a força do ouro não é capaz de comprar a tua paz e...
- Eu não vou, esqueça! Ouviu bem? Esqueça!
- Tudo bem – respirou fundo – eu vou sozinho. Retornes para aquela terra miserável, para que aquela sociedade podre te pise assim como a família de Helga que não tolerava judeus; vais viver com tua morta e lastimes eternamente o dia de tua humilhação...
- Este tem sido o meu alimento...
- Pois bem, quem sabe se ela viva não trocasse contigo e agora estarias tu debaixo da terra?
- Não me caberia de tamanha felicidade – respondeu com voz esganada, mirando as próprias botinas. 
- Estou na hospedaria aqui ao lado, caso mude de idéia – colocou a cartola e saiu.

***

O vapor largou rumo ao Brasil; na tolda, dois amigos davam adeus ao porto de Marselha...


Continua...


1 Comentário:

Krika disse...

Oiee, queria dizer que eu adoro o blog de vocês e o acompanho sempre que posso. Beijos http://ghosthunterstbrazil.blogspot.com/